Gastronomia por Roberta Sudbrack
02/02/2007 ..
Dia 2 de fevereiro...
Dia de festa no mar, eu quero ser o primeiro a saldar Yemanjá! De preferência em Salvador, de pernas para o ar e comendo o acarajé da Cira, em Itapuã... O melhor, não tem erro!
Adoro Salvador, adoro o sorriso dos baianos, adoro o cheiro da cidade, adoro a energia da Bahia. “A Bahia tem um jeito que nenhuma terra tem... Você já foi à Bahia, nega? Não? Então vá!”
Salvador tem um significado único na minha vida. Há 15 anos atrás, ela começou a mudar o seu rumo quanto eu estava por lá. A decisão de virar a casaca e largar a veterinária para ser cozinheira tem muito a ver com tudo isso. Além do mais Yemanjá nunca me deixa na mão, está sempre presente e me segurando pela mão onde quer que eu vá.
Com tudo isso, quando acordei e me dei conta que era 2 de fevereiro, tive vontade de pegar um avião e me mandar para Salvador! Mas pensando no caos que os aeroportos andam e nas reservas para o final de semana na casinha laranja à beira do canal, resolvi que o melhor a fazer era ficar por aqui com os meus quiabos mesmo! Que também têm origem africana e de alguma forma me transportam para lá no pensamento.
Até!
01/02/2007 ..
A primeira vitrola ninguém esquece
Estava lendo a nova revista Piauí, que aliás é bárbara e foi criada pelo brilhante e querido João Moreira Salles. João, que faz parte do fã clube do “SudBurguer”, o nosso hambúrguer artesanal preparado somente na hora do pedido, quando a carne, fresquíssima, é batida com a ponta de duas facas, moldada e grelhada. Além disso, apenas uma camada de parmiggiano reggiano levemente gratinado, tomatinhos marinados e broto de rúcula. Acho que estou com fome, por isso enveredei por esse assunto!
Na verdade quero falar sobre uma história em quadrinhos bárbara, sobre a música na vida de um sujeito muito engraçado, que li na revista Piauí, essa aí:

A história me fez lembrar de quando ganhei de presente do meu vô e da avó a minha primeira vitrola. Todo mundo tem uma história dessas para lembrar. É um momento único na vida da gente. Claro que os mais novinhos vão lembrar do primeiro Ipod, mas está valendo também! Aqui vale tudo!
Meu avô, que era um sagitariano legítimo e como tal dado a grandes produções, sabia que naquela época todo mundo da minha idade andava louco com o filme “Guerra nas Estrelas”. E mais louco ainda por uma vitrola Philips último modelo, daquelas que soltavam as caixinhas para você colocar onde bem entendesse. Mais ou menos o Ipod da época, viu moçada!
Então, um dia ele e minha avó se esconderam na janela do prédio onde morávamos aguardando a minha chegada. Assim que coloquei a mão na fechadura começou a tocar aquela música inconfundível do Star Wars saindo de uma vitrola branca, linda, Philips, delicadamente acomodada no sofá da nossa casinha.
A cara deles era incrível, a satisfação, a alegria, o magnetismo desse momento ficarão na minha mente para o resto da vida. Ainda tenho o LP, o meu primeiro. Infelizmente não tenho mais a vitrola. Daria tudo por ela hoje. Mas por algum motivo, provavelmente fútil, naquela época não me dei conta do quão importante ela seria para sempre na minha vida.
Como romântica inveterada que sou, tendo a acreditar no “pra sempre”, mesmo sabendo da utopia que isso representa. Gosto de acreditar nos “pra sempres” nos amores, nos casamentos, nas amizades, nas alegrias, nas sensações. Mas mesmo que algum desses “pra sempre” falhem, o bom é que nas lembranças eles são “sempre” uma realidade!
Até!
31/01/2007 ..
Quiabo the King!
Ainda sem saber se estou resfriada ou gripada, apesar das dicas esclarecedoras dos confrades, estou feliz da vida! Semana passada lançamos a nossa coleção de tendências culinárias para 2007 com ênfase nessa criatura elegante chamada: quiabo. E nessa semana comecei a introduzir aos poucos alguns pratos novos no nosso menu que muda diariamente.
Ontem servimos como amuse-bouche o nosso quiabo defumado em camarão semi-cozido, era só ele, soberano, sem mais opções. Mas é claro que pensei: vai vir uma enxurrada de pedidos solicitando a troca do amuse-bouche! Por isso preparamos também o nosso tartare de abóbora que já passou por essa fase da desconfiança e tem fãs ardorosos!
Começamos a noite bem cedo - agora a casinha laranja à beira do canal abre às 19h30m, muito europeu – com uma mesa de três senhoras elegantes, as quais eu observava da janela do segundo andar. Sim, agora eu observo tudo mesmo, porque a nossa nova varanda é de vidro, arranjei mais um brinquedinho! Primeiro pedido: “Chef, as clientes da mesa 12 gostariam de saber a opção para o amuse-bouche”. Quase dei uma de Gordon Ramsey e disse aquela expressão que os ingleses adoram: f... o F word! (será que a gente pode falar isso aqui?)! Anyway, tenho certeza de que a Ale sabe do que se trata, se quiserem tradução!
Resolvi manter a tranqüilidade, afinal estava com uns 38º de febre e a noite prometia, fico muito irritada com febre! Disse ao Fábio, nosso supervisor de equipe de salão: “Fábio, diga a elas que eu gostaria que provassem o quiabo, se não gostarem eu troco e ainda preparo outro amuse-bouche de lambuja!” Não sei o que ele disse, mas conseguimos emplacar dois quiabos e, segundo ele, a terceira senhora se arrependeu!
A noite seguiu assim e todas as mesas toparam encarar o quiabo sem arrependimentos posteriores, muito pelo contrário! Uma mesa de clientes mineiros parece que caiu do céu para abençoar a nossa criação. Eu disse: uma coisa é fazer quiabo, outra coisa é fazer quiabo para mineiro! Que responsabilidade! Mas, parece que passamos com louvor e por enquanto ainda não escorregamos na baba!
Comer na minha mão sim, mas vai ter que encarar o King!
Até!
30/01/2007 ..
Primeiro resfriado do ano!
Não sei bem a diferença entre resfriado e gripe. Minha médica já tentou me ensinar várias vezes, mas na minha opinião os dois são insuportáveis! Eu vivo gripada, ou resfriada, sei lá! Pego gripe até por telefone, se alguém me disser que está gripado, pronto, começo a tossir e daí para o febrão é um caminho sem volta!
Tenho umas dez gripes ou resfriados por ano. Já faz parte, é como a minha tendinite, já estou acostumada. Mas confesso que não acreditei quando a primeira do ano resolveu me invadir no domingo. No domingo? Olha que abuso! Meu único dia de folga! Em plena pizzaria, domingo é dia de matinê e pizza, não de gripe!
Enfim, me pegou de jeito para variar. Hoje, quando levantei às 6h30m para ira à Cadeg, estava chuvoso - adoro tempo chuvoso - e pensei: "ótimo dia para um resfriado! Filme no DVD, chocolate quente, bolo de vó, feijão novinho, bifinho...". Aí alguém me cutucou, igual naquela propagando da Fiat e disse: vamos acordar, vamos acordar!
Acordei! Visitei os comentários e vi que o nosso ministro da música voltou em grande estilo e com desejos! Então, seu desejo que sempre foi uma ordem, volta à ordem do dia! Essa receita de filé foi servida ao Primeiro Ministro da Inglaterra Tony Blair, em plena crise do mal da vaca louca na Europa! Ele se fartou, comeu três vezes, quebrou protocolo ao ficar na mesa por mais de duas horas e ainda pediu a receita! Acho que essa está digna de ministro, ou não? De lambuja - não que vocês estejam merecendo, porque os scores andam vergonhosos - vai a receita do gratinado de batata que servíamos toda semana no Palácio da Alvorada e que certamente será uma boa pedida para esses tempos de gripe, ou resfriado...
Roast beef em crosta de pimenta
Por Roberta Sudbrack (receita para 8 pessoas)
Ingredientes:
·1,5 kg de filé mignon
·pimenta-do-reino triturada o quanto baste
·2 colheres de sopa de manteiga sem sal
·2 colheres de sopa de azeite de oliva extra-virgem
·1 cebola fatiada
·2 galhinhos de tomilho fresco
·½ litro de demi-glace (caldo concentrado de carne)
·sal
·Barbante
Modo de preparo:
Limpe o filé, amarre com barbante e passe todos os lados na pimenta triturada.
Em uma frigideira grande, coloque a manteiga e o azeite de oliva e doure o filé por todos os lados. Tempere com sal apenas depois de dourar todos os lados.
Retire da frigideira e termine o cozimento em forno pré-aquecido a 240o por mais ou menos oito minutos. Retire a carne do forno e deixe descansar por alguns minutos para que os sucos e os sabores assentem.
Retire o excesso de gordura da frigideira em que o filé foi dourado, acrescente a cebola e deixe murchar um pouco. Junte o tomilho e o demi-glace.
Passe tudo para uma panela menor e deixe reduzir até adquirir uma consistência cremosa. Tempere com sal e deixe descansar um pouco com a panela tampada.
Na hora de servir coe o molho e sirva com o roast beef e o gratinado de batatas.
Gratinado de batatas
Por Roberta Sudbrack (receita para 8 pessoas)
Ingredientes:
·8 batatas grandes fatiadas bem finas
·100g de queijo gruyère ralado
·50g de queijo parmigiano reggiano ralado
·300ml de creme de leite fresco ralo
·sal
·pimenta do reino moída na hora
Modo de preparo:
Em um recipiente refratário, disponha camadas de batata e o gruyère. Tempere com sal e pimenta do reino moída na hora. Repita esta operação até o final e na última camada não coloque o gruyère.
Adicione o creme fresco até um pouco acima da metade das camadas.
Polvilhe a última camada com bastante parmigiano ralado.
Asse em forno quente destampado por aproximadamente 40 min.
Corte em porções ou sirva no próprio refratário.
29/01/2007 ..
Facas na bagagem!
Sempre que vou escrever o post do dia dou uma circulada pelos comentários para entrar no clima. O que inspirou o post de hoje foi a alegria incontida da Mari e seus preparativos para a viagem. Uma frase me chamou a atenção e me fez fazer o seguinte comentário: não leve facas na bagagem de mão!
Digo isso com conhecimento de causa! Fui viajar certa vez para preparar um jantar fora de Brasília, arrumei a mala com jalecos, sapatos de cozinha, chapéus e tudo mais o que poderia precisar para aquela aventura. Só ficou de fora o meu estojo com minhas facas e pertences – garimpados mundo afora – dos quais tenho um enorme ciúme! Pensei: imagina se eu vou despachar o meu estojo de facas, vai que a minha mala some! E olha que naquele tempo a gente nem vivia o caos de hoje em dia nos aeroportos e ainda tínhamos a graça de voar nas asas seguras da Varig!
Enfim, aportei cheia de confiança no portão de embarque, passei pelo detector de metais e quando virei para pegar as minhas amadas facas, fui surpreendida por pelo menos quatro agentes da Polícia Federal à minha espera. Eles em disseram gentilmente: “queira nos acompanhar por gentileza”. Olhei para a minha tropa – meus assistentes de cozinha – e disse: “não se preocupem que eu já volto!”. E eu naquele momento nem suspeitava do que se tratava!
Fomos para a sala de segurança e lá ele me perguntou: “para que tanta faca?”. Sorri aliviada - mas ele, por sua vez, não mudou o semblante assustado - e disse: “sou cozinheira, estou viajando para preparar um jantar”. Não pareceu adiantar muito, ele continuou me olhando com aquele ar estranho. Por sorte, naquela época eu era a Chef de cozinha do Presidente da República e pude comprovar depois de muita chateação que o Presidente estava à minha espera no Rio de janeiro com mais alguns Chefes de Estado famintos!
Ele chamou o responsável pela segurança da companhia e entregou as minhas facas lacradas para serem transportadas pelo comandante, que só me entregaria quando estivéssemos em terra firme e fora do avião. Viajei indócil sem saber como estariam as minhas facas, quem estaria cuidando delas e o pior, quando estaria novamente de posse de todas elas!
Foi um drama em todos os sentidos! Agora, imaginem isso hoje em dia com os aeroportos no caos que se encontram, a paranóia do terrorismo e a falta que a boa e velha Varig nos faz!
Mari, dois conselhos: não leve as facas na bagagem de mão e aproveite cada segundo da sua aventura! Have a nice trip!
Até!
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